Marcelo Rosenbaum e a essência do A Gente Transforma

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A 19 Fenearte tem proporcionado grandes encontros, em espaços de trocas, oficinas e palestras, reunindo nomes que fazem mesmo a diferença e abrem novas possibilidades a artistas, artesãos, arquitetos e designers. Um desses encontros aconteceu no Espaço Interferências Janete Costa e mostrou o resultado da Jornada Criativa Sebrae, com o designer Marcelo Rosenbaum e 30 artistas pernambucanos. A jornada, uma imersão de três meses no talento e na essência desses artistas, é um reflexo do trabalho feito no projeto A Gente Transforma, conduzido por Rosenbaum desde 2012, em Várzea Queimada, povoado no sertão do Piauí.

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Marcelo Rosenbaum e os artistas da Jornada (Foto: Divulgação)

“A Gente Transforma é um projeto que usa o design para expor a alma brasileira, um mergulho na cultura dos povos que formam o nosso país. É um resgate de histórias do passado para recriar o presente e construir o futuro sob novas bases, livre e sustentável. O projeto é uma criação coletiva, que envolve muitas mentes e almas, cheias de fé, esperança e criatividade”, explicou o designer.

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Cabaças de Nadja Lima (Foto: Lorena Moura/Revista SIM!)

No Recife, ele destaca o prazer que sentiu em poder trabalhar, se aperfeiçoar e se aprofundar com o grupo na identidade pernambucana. “É muito transformador o debruçar sobre a ancestralidade, o saber, a vocação de uma comunidade. Junto à beleza, que muitas vezes não se vê, que não está no padrão. Eu vejo beleza em tudo”, disse.

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Nadja apresenta o trabalho anterior com as cabaças (Foto: Lorena Moura/Revista SIM!)

O projeto também leva em conta a sustentabilidade, que leva à autonomia. “No primeiro encontro com o grupo, me vi diante de uma diversidade tremenda. Com pessoas que produzem roupas, joias, biojoias, patchwork, móveis, acessórios. Fiquei espantado. E vi que era preciso entender e trazer à tona a identidade de cada um, o olhar de cada um, a expressão de cada um, para chegarmos a essa identidade pernambucana naquilo que eles faziam e que faríamos a partir de então”, contou.

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Lorane ampliou o trabalho feito com Canabarro (Foto: Lorena Moura/REvista SIM!)

Para Marcelo, muitas vezes as pessoas trazem o fazer “viciado” com o que o mercado espera e fogem da sua essência. “Quando buscamos as memórias, as lembranças, a ascendência, a memória de cada um se junta no grupo. Fazemos parte de um conjunto de pessoas diferentes acolhendo a diversidade de cada um”, reforçou.

 

Rosenbaum explica fio condutor

O fio condutor do projeto com o grupo no Sebrae-PE foi o Rio Capibaribe. Fazendo o percurso pelo caminho de suas águas, surgiram quatro vertentes da Coleção Risophora: litoral, zona da mata, agreste e sertão. Rizophora (assim, com z) é planta típica do mangue, fazendo assim ligação direta com o rio. “À medida que os encontros foram acontecendo, fomos descobrindo e testando novas possibilidades e as transformações foram acontecendo”, lembrou Marcelo.

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Peças em tamanho menor, antes da Jornada (Foto: Lorena Moura/Revista SIM!)

Nadja Lima, de Surubim, sempre trabalhou com cabaças – plantadas, colhidas, limpas e recriadas por ela. Do material que vem do seu quintal surgem bonecas coloridas, sucesso há muitos anos em sua região. Marcelo viu ali outra possibilidade e instigou novo olhar sobre a matéria-prima. Então, vieram os hangers e os vasos, com nova paleta de cores e novo estilo. O resultado surpreendeu a própria artista. “Ficamos na zona de conforto, sem saber a infinidade de novas formas, novas cores, novos caminhos. A partir do momento que ele foi me mostrando, fui agregando valores, texturas e técnicas. Tudo foi se expandindo e ficou claro para mim. É uma experiência para o resto da vida”, revelou.

A designer Renata Jatobá, do Recife, elogia a habilidade de Rosenbaum em conduzir o processo e o artista às suas descobertas. “Ele ajudava de maneira muito sutil. Mandava sites que me inspiravam, fotos. A conversa com ele era muito importante. Ele via coisas que estavam na minha frente e eu não conseguia enxergar. Estava cega. Foi uma viagem sem sair de casa. A poltrona Bode é a prova dessa transformação. Saí completamente do meu estilo. Eu que trabalha com madeira, em modelos mais fechados, estofados, me deixei cortar, abrir espaços e trabalhar com uma leveza incrível usando ferro e couro de bode”, contou.

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Renata Jatobá e a poltrona Bode (Foto: Lorena Moura/Revista SIM!)

Lorane Barreto, artista que vem desenvolvendo ao longo dos anos a técnica do Canabarro (usando derivados açucarados da cana-de-açúcar, como o melado, para pintar objetos de cerâmica e pedras), ampliou sua expressividade. “Saí de pequenos para grandes vasos. Vi que a técnica pode ser apurada e os desenhos ganharam novas formas. Foi uma experiência muito significativa. Rosenbaum é inspirador. Ele consegue despertar o melhor de você”, elogiou.

Natália Paes, assistente de Rosenbaum, elogiou o desprendimento e o desempenho dos participantes e, definiu a essência do projeto. “Marcelo consegue despertar essas transformações porque ele está sempre aberto ao aprendizado, ao novo. E ele reconhece e admite que não sabe tudo e está em eterno crescimento. Nós só vivemos em eterno crescimento quando admitimos que não sabemos tudo. Ele nos passou isso. Só temos a crescer quando escutamos o outro, compreendemos e respeitamos a história do outro”.

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Renata Jatobá e a sua poltrona antes da Jornada (Foto: Lorena Moura/Revista SIM!)

As peças produzidas pelos 30 participantes da Jornada Criativa estão expostas no Espaço Sebrae, na 19ª Fenearte, junto aos estandes de cada artista. A Fenearte segue até o dia 15 de julho, no Centro de Convenções de Pernambuco, em Olinda.

 

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