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Ismael Caldas: A Luz do Silêncio ilumina Recife com crítica, memória e arte atemporal

Após 15 anos sem uma individual em sua terra natal, o artista pernambucano Ismael Caldas retorna ao Recife com a força silenciosa de sua pintura. A exposição “A Luz do Silêncio”, aberta ao público na Galeria Base Recife a partir de 11 de dezembro de 2025, reúne 20 obras inéditas — todas em tinta acrílica — produzidas entre as décadas de 1970 e 2010.

O nome da mostra carrega múltiplos sentidos: refere-se tanto à técnica singular de Caldas no uso da luz quanto ao seu temperamento reservado, introspectivo e, acima de tudo, fiel à própria linguagem. Com curadoria e texto crítico de Daniel Maranhão, a exposição é mais do que um resgate de uma obra — é um reencontro com a consciência crítica e estética de um artista que soube olhar para a realidade sem filtros, com ironia, lucidez e coragem.

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Quem foi Ismael Caldas? Um artista à margem do espetáculo

Da interiorização ao mundo: a trajetória que começou em Garanhuns

Nascido em Garanhuns, Pernambuco, em 1944, Ismael Caldas iniciou sua trajetória artística em Recife nos anos 1960, quando ingressou na Escola de Belas Artes da UFPE. Logo se destacou pela força expressiva de suas pinturas e, em 1967, foi selecionado para a 9ª Bienal Internacional de São Paulo, o que projetou sua carreira nacional e internacionalmente.

Ao longo de cinco décadas, participou de 33 exposições e salões de arte, com passagens marcantes por instituições como o Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro, a galeria Bonino (RJ), Artespaço (Recife), além de exposições em Portugal. Paralelamente, Caldas teve papel fundamental na formação de jovens artistas, especialmente através das aulas de desenho e pintura na Oficina 154, em Olinda, onde lecionou a partir de 1969.

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Foto: VICTOR GALVÃO

A recusa ao modismo e à fama: arte como expressão sincera

O que diferencia Ismael Caldas, no entanto, não é apenas sua trajetória institucional, mas sua postura ética diante da arte. Em tempos nos quais o mercado e os holofotes ditam tendências, Caldas foi firme em seguir um caminho próprio. Como afirmou em uma entrevista à Revista Continente em 2003:

“Inspiração existe à medida em que você tem dias de sintonia consigo mesmo. Deprimido não se faz coisa alguma. Estar em sintonia consigo mesmo talvez seja a chave da inspiração.”

Sua obra não se curva à mídia, ao espetáculo ou ao consumo fácil. Para ele, “a pintura não é uma atividade verbal”, como relembra o curador Daniel Maranhão. A escolha dos temas partia de sua vivência íntima e de um senso crítico apurado — sem concessões.

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Foto: VICTOR GALVÃO

A Luz do Silêncio — O retorno de Ismael à cena pernambucana

Uma mostra de inéditos: o recorte de 20 obras entre 1970 e 2010

A exposição “A Luz do Silêncio” é composta por obras que integravam a coleção particular do próprio artista. A escolha do recorte revela o pluralismo de Ismael: estão lá figuras humanas, autorretratos, cenas do cotidiano, políticos, generais, músicos, animais, cadeiras e objetos.

A paleta de cores — longe dos clichês tropicais — traz tons densos, soturnos e, por vezes, duros. Mas há respiros, como na série sobre o jazz, onde cores mais generosas apontam para uma musicalidade interna. O resultado é uma pintura que inquieta e envolve, convida ao silêncio e à reflexão.

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Foto: VICTOR GALVÃO

Galeria Base Recife e o papel curatorial de Daniel Maranhão

Aberta em março de 2025, a Galeria Base Recife finaliza seu primeiro ano de atividades com essa mostra emblemática. Após a coletiva Eixo, que trouxe artistas de fora de Pernambuco, a galeria aposta agora em um nome local — e que merecia ser revisto sob nova luz.

“Estamos felizes de fechar o ano com essa individual. Ismael é um artista da terra que merece mais visibilidade e reconhecimento em seu estado”, pontua Gabriela Maranhão, diretora da filial recifense da Base.

Arte crítica e beleza insólita: o universo de Caldas

Corruptos, ditadura e ironia visual: crítica como pincelada

A crítica social em Ismael Caldas não é panfleto. É densidade pictórica, forma disforme, ironia em imagem. Em obras como as da série “Corruptos, corruptos”, ele retrata políticos com traços exagerados e expressões grotescas. Generais da ditadura aparecem como caricaturas de si mesmos — não pelo humor fácil, mas pela denúncia visual.

Seu pincel aponta para o que está por trás do discurso oficial, desnudando a face real do poder. Nesse sentido, Ismael antecipa discussões contemporâneas sobre arte política, mas com uma abordagem própria: sem falas, sem slogans, apenas imagem.

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O elogio do estranho: a beleza como desvio do previsível

Segundo o crítico e artista Raul Córdula, organizador do livro Ismael Caldas (CEPE, 2023), o trabalho do artista é a busca por uma “beleza rara”, incomum e despojada de adornos. A estética caldiana é uma forma de ver o mundo por dentro — onde o que é aparentemente feio revela uma camada mais profunda de verdade.

“Não se trata de feiura do ponto de vista corriqueiro, mas da realidade escondida na visibilidade da figura”, afirma Córdula.

Esse elogio ao estranho também é reforçado pelo artista José Cláudio, que destacou a paleta “não açucarada” de Ismael como um gesto consciente de distanciamento da paisagem tropical idealizada. Nada é concessão em sua obra.

Ismael Caldas e o tempo presente: por que revisitá-lo agora?

Um artista do silêncio em tempos de barulho

Em uma era dominada pela hiperexposição, onde tudo é falado, compartilhado e exibido em tempo real, a postura de Ismael — recluso, silencioso, fiel ao que acreditava — soa quase subversiva. Ele trocava cartas com amigos, como Francisco Brennand, e preferia a solidão do ateliê ao burburinho das rodas sociais.

Esse silêncio, no entanto, não é ausência. É gesto artístico. É crítica à pressa. É um lembrete de que a arte precisa de tempo, escuta e presença.

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Foto: Fred Jordao

Conexões com as novas gerações

É aqui que o trabalho de Caldas encontra pontes com o agora. Para os jovens artistas e arquitetos (como os perfis Júnior e Clara, por exemplo), sua trajetória mostra que é possível construir relevância com coerência, mesmo fora do hype.

A recusa ao espetáculo, o mergulho no próprio universo e a capacidade de retratar a realidade sem filtros são atitudes inspiradoras para quem deseja usar a arte como ferramenta de crítica e identidade.

Visitação, informações práticas e convite ao público

Se você busca uma exposição de arte em Recife que vá além da estética e ofereça um mergulho na consciência crítica brasileira, “A Luz do Silêncio” é parada obrigatória. Um convite à introspecção, ao olhar cuidadoso e ao reencontro com a pintura como ato de presença.

📍 Serviço

  • Exposição: A Luz do Silêncio – Ismael Caldas
  • Curadoria: Daniel Maranhão
  • Abertura: 10 de dezembro – 18h
  • Período: 11 de dezembro de 2025 a 30 de janeiro de 2026
  • Horário: Segunda a sexta, das 10h às 18h
  • Local: Galeria Base Recife – Rua Professor José Brandão, 163 – Boa Viagem
  • Instagram: @galeriabase_recife
  • Site: galeriabase.com.br

Mais Informações

  1. Quem foi Ismael Caldas e qual sua importância? Um dos artistas mais importantes de Pernambuco, com obra crítica e singular. Atuou por cinco décadas e foi selecionado para a Bienal de SP em 1967.
  2. Qual é o conceito da exposição “A Luz do Silêncio”? Celebrar a força introspectiva e crítica de Ismael por meio de 20 obras inéditas, de acervo próprio, que abrangem sua trajetória entre 1970 e 2010.
  3. Como a crítica social se manifesta em suas obras? Através de figuras disformes, paletas densas e ironia visual. Retrata políticos corruptos, militares e figuras populares com senso crítico.
  4. Onde está localizada a Galeria Base Recife? Em Boa Viagem, na Rua Professor José Brandão, 163.
  5. Quais os destaques visuais da exposição? Uso original da luz, paleta incomum, linguagem não tropical, séries sobre política, música e cotidiano.
  6. Por que visitar essa mostra em Recife? Porque é uma chance única de conhecer ou reencontrar um dos grandes nomes da arte pernambucana, em sua primeira individual na cidade após 15 anos.
  7. A exposição é acessível ao público em geral? Sim, com entrada gratuita durante os dias úteis e espaço aberto ao público.
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Foto: Fred Jordão

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