Projeto Armazém 11 por FV ARQUITETOS (1)
Projeto Armazém 11 por FV ARQUITETOS (1)

Armazém 11: reforma de R$14 milhões cria novo polo da economia criativa em Pernambuco

O Armazém 11, no Bairro do Recife, está prestes a ganhar uma nova identidade. Assinado pelo escritório FV Arquitetos, dos sócios Liesid Neto e Felipe Valadares, o projeto do novo Mercado Criativo de Pernambuco propõe uma reconfiguração completa da experiência do antigo Centro de Artesanato de Pernambuco. Localizado ao lado da Praça do Marco Zero, no Recife Antigo, o espaço se consolida como um robusto hub de economia criativa, unindo cultura, paisagem e patrimônio sob uma mesma cobertura.

A reforma do Armazém 11 vai além de uma simples restauração estrutural. Sob a mesma cobertura, o equipamento passa a reunir o Centro de Artesanato, as lojas de Moda Autoral (MAPE) e de Bebidas de Pernambuco, além de uma editora local e uma cafeteria. Assim, o resultado é um ecossistema dinâmico, onde os ambientes se comunicam e se complementam, construindo uma narrativa integrada sobre a identidade cultural do estado.

As obras de requalificação já estão em andamento e são conduzidas pela Agência de Desenvolvimento Econômico de Pernambuco (Adepe), com investimento de R$ 14 milhões. Segundo os arquitetos responsáveis, o ponto de partida do projeto foi revelar a arquitetura original do armazém e potencializar sua relação com a paisagem tombada do Marco Zero.

O armazém foi internamente liberado de volumes que bloqueavam a vista, permitindo que sua volumetria original se impusesse através da cobertura em duas águas, da estrutura robusta e do pé-direito generoso que confere ao espaço uma escala quase monumental. A modernização acontece por dentro — nos usos, nos percursos, nas visuais e na forma como as pessoas experienciam o lugar.

Arquitetura que resgata a paisagem e a identidade cultural

Um dos principais elementos do projeto é a reaproximação do edifício com o Rio Capibaribe. Por muito tempo, o armazém manteve-se de costas para a água; agora, a intervenção cria uma nova relação entre o espaço interno e a paisagem do entorno, abrindo o edifício para as margens do rio.

Durante anos, o Armazém virou as costas para o rio; agora, o abraça. O espaço contará com uma varanda privilegiada sobre a água, onde a cafeteria se acomoda com um sofá contínuo voltado para as águas, convidando o visitante a pausar, respirar e contemplar a paisagem.

Além da abertura para o rio, a setorização interna do Armazém 11 foi estruturada em dois volumes complementares. Em uma das áreas, o pé-direito permanece totalmente livre, preservando a relação direta com a cobertura original e evidenciando a amplitude do galpão histórico. Já na outra, os arquitetos inseriram um mezanino, criando uma segunda camada de usos e ampliando as possibilidades de ocupação do espaço.

Outro elemento central da proposta é o granilite multicolorido que percorre todo o interior do equipamento. Inspirado nas diferentes tonalidades das terras pernambucanas, o piso materializa o conceito gerador do projeto. A referência vem da exposição Terras de Pernambuco, da artista visual Marlene Almeida, que percorreu todos os municípios do estado, coletou amostras de terra de cada localidade e as transformou em pigmentos, produzindo um mapa em que cada município possui uma cor própria.

A ideia foi incorporada ao projeto arquitetônico como forma de traduzir visualmente a diversidade do território pernambucano e reforçar o conceito de que essa multiplicidade constitui uma das maiores riquezas culturais do estado.

Percurso expositivo e integração dos espaços no Armazém 11

No térreo, os visitantes serão recebidos por uma área expositiva dedicada a apresentar o universo da economia criativa pernambucana antes mesmo do contato com os produtos comercializados. A partir desse ponto, o percurso se desenvolve de forma contínua pelo Centro de Artesanato, pela MAPE, pela cafeteria e pela loja de bebidas.

A circulação não é imposta; ela é induzida pela disposição dos espaços, que convida o visitante a descobrir cada núcleo naturalmente, sem pressa, como quem passeia.

No coração do Centro de Artesanato, um anfiteatro em arquibancada desempenha múltiplas funções. Além de organizar a circulação vertical entre os pavimentos, o elemento funciona como suporte expositivo para produtos e como plateia para apresentações e eventos. Dessa forma, o espaço ganha versatilidade sem perder a identidade que o caracteriza.

As paredes do armazém também passam a receber ilustrações de grandes nomes da arte pernambucana, transformando o equipamento em uma espécie de galeria viva, onde a produção artística se integra ao cotidiano dos visitantes. Assim, cultura e consumo caminham lado a lado em cada canto do edifício.

Um novo capítulo para o antigo Centro de Artesanato

Inaugurado em 2012 como Centro de Artesanato de Pernambuco, o espaço reuniu ao longo de mais de uma década os trabalhos de cerca de 1.800 artesãos de todas as regiões do estado. Com isso, consolidou-se como uma das principais vitrines da produção artesanal pernambucana e uma referência nacional no setor.

O Armazém 11 é, antes de tudo, um espaço de narrativas. Quem entra faz uma imersão na identidade cultural de Pernambuco, conhece os grandes mestres do artesanato, entende como funciona a economia criativa do estado e pode consumir diretamente esses produtos, gerando renda para artesãos que dependem desse espaço ao longo de todo o ano.

Segundo Liesid Neto, o novo Armazém 11 amplia o público a que se destina. Um espaço que durante anos serviu principalmente ao turista agora se reposiciona como um equipamento vivo para toda a cidade, reforçando o papel do Bairro do Recife como território de encontro entre patrimônio histórico e produção cultural contemporânea.

Com a proposta do FV Arquitetos, o Armazém 11 se firma como um exemplo de como a arquitetura pode reconectar edificações históricas à paisagem e à vida cultural de uma cidade. Ao revelar a estrutura original do galpão, abrir as visuais para o Capibaribe e traduzir a diversidade pernambucana em elementos como o piso de granilite, o projeto sintetiza um olhar cuidadoso sobre memória, identidade e economia criativa — valores que, juntos, redesenham o futuro desse importante marco do Recife Antigo.

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