Pessoas passam pelo painel da cenografia assinada por Joana Lira para o carnaval 2009 do Recife

O carnaval não foi mais o mesmo desde que a artista gráfica Joana Lira imprimiu a sua arte nas ruas do Recife. Durante 10 anos ela criou e desenvolveu o projeto de cenografia e identidade visual da festa na cidade. “A minha relação emocional com o carnaval sempre foi muito forte. Quando criança, sentia um frio na barriga só de ver fitinhas coloridas serem penduradas pelas ruas. Fantasiada dos pés à cabeça, aprendi cedo a ser levada pela multidão no rabo de uma orquestra de frevo. Mas nunca imaginei um dia ser parte dos bastidores de uma festa dessa magnitude”, conta Joana.

Cenografia de Joana Lira para o Carnaval do Recife 2008
Cenografia de Joana Lira para o Carnaval do Recife 2008 | Foto: Tiago Lubambo

Durante os anos de 2001 a 2011 Joana se juntou ao pai e arquiteto Carlos Augusto Lira, responsável pela cenografia dos carnavais recifense. O colorido das suas ilustrações, as referências aos homenageados e suas obras, os traços de visão fantástica do Armorial e do cordel. Tudo numa escala deslumbrante, resultou numa intervenção urbana aclamada por todo folião. “Vejo maracatus pulsantes, com suas indumentárias brilhantes e o manguebeat e suas derivações, que resultam no uso de cores luminosas, com contrastes violentos e inusitados. É nessa tradição que devemos ver o trabalho de Joana Lira. Na transposição daquela linguagem para a dimensão urbana”, afirma o designer Kiko Farkas.

Desenho de Joana Lira para a cenografia do Carnaval 2009 do Recife
Os traços e cores de Joana Lira para o Carnaval 2009 do Recife

Joana Lira desenvolveu uma antropologia visual expressa por uma linha preta vazada receptiva, que possibilita a expansão de formas geométricas e cores vibrantes. Ao mesmo tempo, estão implícitas e explícitas relações de euforia, alegria e sensualidade presentes em seu trabalho. Falamos aqui em relações estéticas e de constituição do sujeito relacionados a cidade de Recife. Reconhecendo e revivendo raízes da cultura, além de promover uma nova educação estética pela sensibilização do olhar”, afirma Mamé Shimabukuro, curadora de sua exposição no Instituto Tomie Ohtake.

Cenografia assinada por Joana Lira para o Carnaval 2009 do Recife homenageando Cícero Dias
As ruas do Recife tomada pela homenagem a Cícero Dias no Carnaval de 2009 assinado por Joana Lira | Foto: Beto Figueroa

Algo impressionante se revela nas proporções gigantescas que sua cenografia ganha na escala urbana sem perder a riqueza de detalhes dos seus desenhos. A xilogravura, o Armorial, a arte popular, indígena e africana. Picasso, Matisse, Hundertwarsser, Keith Haring e Niki de Saint Phalle. “Dessa miscelânea surgiu a minha linguagem gráfica, com traços simplificados. Marcado por cores contrastantes, fortes, chapadas, bem delimitadas pela linha preta”, conta Joana.

A fabricação das personagens de Joana Lira para a cenografia do Carnaval do Recife 2008
A fabricação dos gigantes do Carnaval do Recife 2008 | Foto: Barbara Wagner

Entre os traços e as cores de Joana Lira, tomam vida fortes manifestações da tradição do carnaval pernambucano. São maracatus nação e rural, com os orixás africanos, os cortejos de reis e rainhas de influências africanas e portuguesas. A origem indígena e os caboclos da mata com suas lanças e vestes largas, coloridas e brilhantes. São mangueboys, passistas de frevo, caboclinhos, cirandeiros, os bichos animados, a arte e os artistas da sua terra.

Bichos alopradros no Carnaval 2006 do Recife criados por Joana Lira
Os bichos aloprados de Joana Lira tomaram conta do Carnaval 2006 do Recife | Foto: Tiago Lubambo

   

Outros Carnavais de Joana Lira

Em 2009 a artista e designer lança o livro Outros Carnavais – Nos bastidores da folia ou como o trabalho de cenografia surgiu, cresceu e apareceu na maior festa de rua do Recife. Um apanhado da produção de 2001 a 2008. Nele ela conta as inspirações, o processo de criação e o amadurecimento das etapas que vão desde o planejamento até a execução de toda iconografia. Os parceiros e o trabalho em equipe, fundamentais para a construção de uma história que mudou a imagem do carnaval da cidade e que tornou a cenografia um espetáculo a mais para os foliões. No livro ela revela as descobertas dos materiais e soluções que foram encontradas ao longo dos anos. Traz os esboços, os desenhos finais e o registro fotográfico das imagens aplicadas no ambiente urbano. Tudo temperado por um colorido e uma poética de quem é verdadeiramente uma foliã nata.

Livro Outros Carnavais de Joana Lira editado pela DBA
No livro Outros Carnavais, Joana Lira apresenta o trabalho de cenografia entre os anos de 2001 e 2008. Editado pela DBA

Quando a vida é uma euforia

O Carnaval do Recife rendeu a Joana a participação em diversas exposições nacionais e internacionais. Entre elas, a mostra sobre Arte e Cidade no Designmai (Alemanha, 2006), a Expo Xangai (China, 2010), a Samba Etc. no Musée International du Carnaval et du Masque Bélgica, 2011) e a Carna Vale, sobre o imaginário brasileiro na cultura brasileira (São Paulo, 2015).

Personagens do Auto da Compadecida de Ariano Suassuna ganham vida com a arte de Joana Lira para o Carnaval 2006 do Recife
Personagens do Auto da Compadecida de Ariano Suassuna ganham vida com a arte de Joana Lira para o Carnaval 2006 do Recife

Em janeiro de 2018 o Instituto Tomie Ohtake abre as portas para o carnaval pernambucano de Joana. Ressalta as manifestações regionais, com um olhar atual e repleto de ressignificados.  A curadoria de Mamé Shimabukuro promove uma aproximação do visitante com o multifacetado carnaval pernambucano. A ideia é transportar o público para uma das maiores festas populares brasileiras. “A mostra busca uma tonalidade experimental, ao costurar situações imersivas e documentais sobre as histórias e personagens deste carnaval. Refletindo sobre como as representações gráficas da cultura carnavalesca interagem com os sentimentos e emoções das pessoas”, afirma a curadora. Para isso, a exposição conta com a trilha sonora de Maurício Badé.

Gigante do cenário idealizado por Joana Lira para o Carnaval 2007 do Recife
O cenário de Joana Lira toma vida em meio a multidão de foliões no Carnal 2007 do Recife | Foto: Tiago Lubambo

Quando a vida é uma euforia” se divide em três núcleos. O primeiro trata da ideia de pertencimento. Traz o registro de manifestações culturais como Frevo, Maracatu e Caboclinhos. Junto as intervenções urbanas realizadas por Joana. O segundo é sensorial, com grandes projeções marcadas pelo som dos ritmos locais. E o terceiro é a transcendência, exibindo personagens em tamanhos monumentais. Só quem já foi ao carnaval de Pernambuco sabe do que se trata e essa é uma grande oportunidade de sentir um pouco dessa efervescência. “Joana traduz com seu vigor criativo as tradicionais invenções do povo edificadas na cultura brasileira”, completa Ricardo Ohtake.

Apresentação de Maracatu no Recife com cenografia de Joana Lira no ano de 2010
Os Maracatus dançam com as personagens criadas por Joana Lira para o Carnaval 2010 do Recife | Foto: Josivan Rodrigues

 

Programa Educativo da Exposição de Joana Lira

Oficina de Música Percussiva Pernambucana

  • Ministrada pelo músico percussionista Maurício Badé
  • Atualmente ele trabalha com Criolo e Russo Passapusso
  • 03/02  | 11h

Oficina de fantasias de carnaval

  • Ateliê de produção de fantasias carnavalescas
  • Educador Felipe Tenório
  • 09/02 | 13h

Padrões Momescos: estampando a emoção

  • Oficina de estamparia manual de estampas autorais a partir de técnica pochoir inspirados no carnaval pernambucano
  • Ministrada por Lin Diniz e Bárbara Penaforte
  • 17/02 | 9h às 18h
Livro O Carnaval dos Bichos Aloprados de Joana Lira e Januária Cristina Alves
As histórias da Contação sairão do livro O Carnaval dos Bichos Aloprados de Joana Lira e Januária Cristina Alves

Contação de histórias

  • Inspirada no livro “O carnaval dos bichos aloprados” (Editora Nova Fronteira), de Joana Lira
  • 24/02 | 11h

Conversa em bloco

  • Visita à exposição e conversa sobre a pesquisa e as produções para o Carnaval de Recife
  • Mediadas pela artista gráfica Joana Lira
  • 24/02 | 15h

Apresentação de dança contemporânea

  • Espetáculo que une a cultura popular à arte contemporânea
  • Com a cantora, compositora e dançarina pernambucana Flaira Ferro
  • 04/03 | 18h

 

O universo dos mangueboys desenhado por Joana Lira para o Carnaval 2001 do Recife
O universo dos mangueboys desenhado por Joana Lira para o Carnaval 2001 do Recife | Foto: Gilvan Barreto

Quando a vida é uma euforia

  • 24 de janeiro de 2018 até 04 de março de 2018
  • De terça a domingo, das 11h às 20h
  • Entrada gratuita

Inscrições para o Educativo

Instituto Tomie Ohtake

  • Av. Faria Lima 201 – Complexo Aché Cultural (Entrada pela Rua Coropés, 88) – Pinheiros SP
  • Metrô mais próximo – Estação Faria Lima/Linha 4 – amarela
  • (11) 2245.1900
Obra de Conchita Brennand com elementos da natureza

Conchita Brennand é um ser especialíssimo, raro em sua arte intocada. Da sua mente novos seres tomam forma, livres de qualquer enquadramento trazido pela razão. Há mais de cinco décadas a sua arte brota em meio as maravilhas do bairro da Várzea, onde ela viveu por vários anos com seu irmão artista, Francisco Brennand.

Obra de Conchita Brennand explora o imaginário e as cores
As cores e o imaginário de Conchita Brennand

Uma explosão de cores, símbolos e miragens. Um mundo exótico e poético. O ambiente tropical das matas e do Rio Capibaribe, com seus lagos, açudes e aguadas, e uma natureza viva, com troncos e galhos, folhas e frutos sustentam o olhar de Conchita. “O espírito da mata se revela em tudo. Nas figuras sensuais, nos animais fantásticos e na flora. Das raízes às folhas, que se constitui em tramas, malhas e tecidos que envolvem seus tantos corações abertos para o mundo”, destaca o curador da sua primeira individual, Raul Córdula.

Obra de Conchita Brennand que traz a natureza e símbolos em azul e verde
A natureza exuberante da Várzea mistura-se aos sonhos de Conchita. Foto | Lucas Oliveira

Mesmo vivendo com arte por mais de oito décadas, Conchita Brennand se manteve longe do público, guardando consigo preciosidades. Em janeiro de 2018, ela realiza a sua primeira exposição individual na Arte Plural Galeria. “O Prazer do olhar” apresenta uma produção com cerca de 30 trabalhos em papel canson, utilizando Posca; e também alguns em cerâmica. A curadoria de Raul Córdula tem a missão especialíssima de reunir o universo dessa artista incrível.

Raul Córdula e Conchita Brennand escolhem as obras para a primeira individual da artista
Raul Córdula e Conchita Brennand escolhem as obras para a primeira individual da artista | Foto: Lucas Oliveira

“Os sonhos, seu verdadeiro território, seu domínio, se revelam nas concepções que, caóticas embora, são como mapas sem pontos cardeais. Texturas aveludadas rompidas por fortes traços como marcas de machados na árvore. Por se apegarem aos sonhos não quer dizer que sejam narrações, histórias, ilustrações gráficas da realidade. São, como qualquer obra de arte, símbolos em si, índices de seu imaginário, ícones elementais, signos de prazer. O prazer do olhar”, revela Raul sobre a Mostra de Conchita.

Obra de Conchita Brennand com traços de sensualidade, natureza e imaginário
Há leveza na sensualidade imaginária de Conchita Brennand. Foto | Lucas Oliveira

Conchita Brennand por Raul Córdula…

Há uma constante no mundo artístico desde a Renascença. Trata-se da produção de grandes personalidades que ofuscam com o poder de suas obras os artistas que os orbitam. Quantos artistas amigos de Picasso não ficaram à margem da história? Quantos alunos de Verocchio, em cuja oficina existia constantemente mais de duzentos aprendizes, foram ofuscados por seus dois discípulos principais: Da Vinci e Botticelli? Isto se repete sempre quando vemos artistas de talento que figuram na entourage das estrelas da arte.

Obra de Conchita Brennand sobre a natureza do seu imaginário
Uma nova natureza surge na arte de Conchita Brennand. Foto | Lucas Oliveira

Conchita Brennand é um exemplo interessante: irmã de Francisco Brennand — um dos mais importantes artistas do Brasil, não apenas pelo significado de sua obra, mas também pela grandiosidade numérica de seu trabalho, um orgulho de todos os pernambucanos —, ela não é devidamente reconhecida como a artista que é, dona de um talento e uma imaginação criativa como poucos são. Embora sendo esta grande senhora uma pessoa muito notória de minha geração, só vim conhecê-la recentemente e me surpreendi ao ver pela primeira vez a sua arte.

Obra de Conchita Brennand com pássaro azul
Os símbolos, os pássaros e novos seres através do olhar de Conchita

 

É claro que Conchita vê desde sempre o mesmo mundo de Francisco, participa da mesma história repleta de símbolos, sonhos e miragens que seu irmão mais velho, do ambiente tropical das matas da Várzea e do Capibaribe donde existem lagos, açudes e aguadas, dos animais — pássaros especialmente — em coreografias entre solos argilosos, troncos e galhos, folhas e frutos. Eis aí o ambiente que sugere o paraíso morno e eivado das cores extremas com que Conchita articula sua poética, desenha seu mundo sensual e concebe suas composições às vezes orgânicas, às vezes racionais.

Obra de Conchita Brennand com cores e traços
Entre os traços geométricos e orgânicos, entre o imaginário e o racional, aí nasce a obra de Conchita

 

O prazer do Olhar

  • Arte Plural Galeria | R. da Moeda, 140 – Recife, PE – (81) 3424-4431
  • Vernissage | 9 de janeiro de 2018 – 19h
  • Exposição | 10 de janeiro a 2 de fevereiro de 2018